A importância da sensibilidade nos negócios e a capacidade de capturar oportunidades
Entrevista com: Beatriz Passos
Global Legal Director | Head of Compliance and Risk Management | DPO
1. Em áreas tradicionalmente rígidas como Compliance e Jurídico, como a sensibilidade pode se tornar uma aliada estratégica na identificação de riscos e oportunidades antes que eles se materializem?
Quando pensamos em áreas como Jurídico e Compliance, é comum associá-las a processos rígidos, normas inquestionáveis e foco exclusivo no cumprimento da lei — o famoso “não” em primeiro lugar. No entanto, a sensibilidade é um diferencial estratégico capaz de mudar essa percepção. Estar aberto à escuta, observar o contexto, interpretar o ambiente e compreender diferenças culturais permite ao advogado concentrar-se no que realmente importa para o cliente e nas suas maiores preocupações.
Essa sensibilidade possibilita identificar riscos e oportunidades antes mesmo de se tornarem evidentes para todos, e essa percepção vai além do conhecimento técnico.
Em operações multinacionais, essa habilidade é ainda mais relevante. Cada país possui sua própria lógica regulatória, e o advogado atua como um verdadeiro tradutor, adaptando demandas e exigências de uma cultura para outra. Nesses casos, a sensibilidade é essencial para transmitir mensagens de forma assertiva e preservar a conexão entre processos, decisões e o propósito do negócio.
Ao combinar sensibilidade com conhecimento, histórico e análise de tendências, o mapeamento dos riscos se torna mais claro, permitindo classificar severidade e recorrência e priorizar o que é mais crítico. Nem sempre um risco elevado inviabiliza um negócio — o risco pode ser compreendido, controlado e, sempre que possível, transformado em vantagem competitiva. Em resumo, a sensibilidade ajuda a transformar as áreas de Compliance e Jurídico em parceiras estratégicas, capazes de viabilizar oportunidades em vez de apenas fiscalizá-las.
2. Na sua visão, desenvolver sensibilidade, seja em relação a pessoas, mudanças regulatórias ou movimentos de mercado, pode ser um diferencial competitivo para líderes? Como isso se traduz, na prática, no dia a dia de quem ocupa uma posição estratégica?
A sensibilidade funciona como um radar capaz de captar sinais sutis que, para muitos, passariam despercebidos. Ler o clima de uma negociação, perceber o que um cliente não verbaliza ou antecipar a reação de um regulador permite tomar decisões mais precisas e estratégicas, e isso vale para líderes de qualquer setor.
É importante lembrar que negócios e relações comerciais são, no fim das contas, construídos por pessoas. A sensibilidade ajuda a criar conexões genuínas, compreender motivações e adaptar abordagens para gerar confiança e engajamento. É uma habilidade exclusivamente humana, algo que nenhuma máquina consegue reproduzir com a mesma profundidade e empatia, e que torna as interações profissionais mais produtivas e sustentáveis no longo prazo.
Brinco com minha equipe que faz parte do script de todos atuar em “freestyle”, isto é, lidar com o imprevisto, o inesperado, entrar em cena com “a cara e a coragem”. Mas para mim isso não é improviso sem preparo, e sim preparo suficiente para agir com liberdade. É ter estrutura, mas sem ficar preso a ela. É criar espaço para testar, errar de boa fé, aprender rápido e seguir em frente. E aqui a sensibilidade entra como ingrediente essencial: é ela que dá o jogo de cintura para interpretar o momento, entender os agentes envolvidos e ajustar o rumo sem perder o objetivo final, transformando imprevistos em oportunidades. Quando apoiada em conhecimento sólido, essa habilidade é justamente o que diferencia uma gestão comum de uma gestão de alto impacto.
3. Ao longo da sua trajetória, houve algum momento decisivo em que a capacidade de ler o ambiente com sensibilidade foi crucial para orientar uma escolha de negócio ou mitigar um risco iminente? Pode compartilhar esse episódio com a gente?
Um exemplo é saber identificar o momento de iniciar e encerrar negociações. Muitas vezes, o timing certo pode pesar mais do que o argumento jurídico mais sólido. Em uma ocasião, tínhamos todos os elementos para vencer uma disputa judicial no mérito, mas percebi que prolongar o processo poderia trazer consequências negativas que iam muito além da esfera legal: desgaste, custos desnecessários e insegurança para stakeholders.
Ao analisar não apenas os fatos, mas também as preocupações não verbalizadas pela outra parte, identifiquei que havia uma janela de oportunidade para negociar e encerrar o impasse de forma construtiva. Propusemos um acordo rápido e equilibrado, que atendeu aos interesses de ambas as partes, evitou meses de incerteza e preservou relações importantes para o negócio.
Essa experiência reforçou minha convicção de que a habilidade de ler nuances, antecipar reações e compreender o que realmente está em jogo é um fator decisivo para transformar estratégia em resultado concreto e sustentável.
4. O setor de O&G é particularmente sensível a mudanças geopolíticas e regulatórias. Como um olhar atento ao cenário global pode influenciar positivamente a atuação jurídica, ajudando na antecipação de movimentos e no direcionamento estratégico das empresas?
Concordo que o setor de Oil & Gas sempre foi sensível a movimentações geopolíticas e mudanças regulatórias. No entanto, esse contexto já não é exclusivo da área: hoje, qualquer transação multinacional pode ser impactada por restrições comerciais, exigências ambientais, barreiras tarifárias ou sanções cada vez mais rigorosas.
Ter um olhar atento ao cenário global significa acompanhar não apenas as normas em vigor, mas também as tendências políticas, econômicas e sociais que influenciam a criação dessas regras. Essa visão permite antecipar movimentos, preparar respostas rápidas e alinhar estratégias antes que mudanças ocorram. Na prática, é a diferença entre ser surpreendido por uma mudança regulatória e já ter um plano de ação estruturado quando ela chega, garantindo agilidade, segurança e vantagem competitiva.
No caso específico das sanções, estas vêm se tornando mais específicas e abrangentes, incluindo proibições relacionadas a transações financeiras, restrições ao consumidor final, barreiras territoriais, limitações de uso de tecnologias e restrições a investimentos. O impacto nos negócios é direto e profundo. Por isso, não basta avaliar apenas o parceiro comercial imediato: é essencial adotar políticas internas de avaliação de risco mais robustas, implementar programas contínuos de treinamento e realizar análises frequentes e detalhadas de toda a cadeia de fornecimento e dos parceiros nela inseridos.
Esse nível de preparo não apenas fortalece a governança e amplia a capacidade de proteção e resposta das organizações, mas também posiciona a empresa de forma mais resiliente e estratégica, pronta para transformar riscos em vantagem competitiva em um ambiente de negócios cada vez mais complexo e desafiador.
5. Considerando esse olhar sensível e estratégico que discutimos, como você acredita que essas competências influenciam os critérios na hora de contratar, desenvolver ou promover profissionais nas áreas jurídicas e de compliance? Quais habilidades têm se tornado mais valiosas além da técnica?
Hoje, é imperativo combinar técnica com visão, controle emocional e habilidades sociais. Na hora de contratar ou promover, busco profissionais que unam conhecimento sólido a adaptabilidade, capacidade de relacionamento e comunicação eficaz. É importante que a equipe seja formada por pessoas que encarem a mudança como parte natural do trabalho.
As habilidades mais valiosas são aquelas que transformam informação em ação: pensamento crítico, leitura de contexto, comunicação clara, coragem para decidir, responsabilidade para sustentar a decisão e resiliência para seguir adiante quando tudo muda, ou para recomeçar quando algo não dá certo. Mais do que conhecer a lei, é preciso saber aplicá-la no mundo real, com todos os seus imprevistos, ambiguidades e pressões. Também valorizo profissionais que compreendam que comunicar bem é tão importante quanto entregar bem, que reconheçam que questionar, buscar o diferente e inovar é mais valioso do que perseguir a perfeição a qualquer custo, e que cultivem abertura e respeito para trabalhar em equipe.
Ao longo da minha carreira, aprendi que os melhores resultados vêm de equipes com autonomia para criar, segurança para errar e propósito para se manter firmes mesmo diante da incerteza. Essa autonomia deve estar acompanhada de responsabilidade para tomar decisões conscientes, avaliar riscos, assumir as consequências e agir sempre alinhado aos valores e objetivos da organização. Liderar é cultivar esse ambiente, e é isso que procuro construir todos os dias.