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Cibersegurança: a área que mais contrata

Todo ataque que não acontece começa com um profissional que sabe o que está fazendo. O problema é que esses profissionais estão em falta — e as empresas estão pagando caro por isso.

O Brasil perdeu cerca de R$ 126 bilhões em 2024 por causa de crimes cibernéticos. Para ter uma referência: esse valor supera o PIB de vários países da América Latina e representa aproximadamente 1,5% de toda a economia brasileira. Só um ataque de ransomware, em média, custa R$ 6 milhões para uma empresa brasileira se recuperar — sem contar o resgate pago aos criminosos.

Diante desse quadro, uma pergunta se impõe: quem vai proteger as empresas brasileiras?

A resposta está no mercado de trabalho. Cibersegurança deixou de ser uma área de suporte técnico para se tornar uma função estratégica de alto nível. E a demanda por profissionais qualificados já superou, em muito, a oferta disponível.

Um déficit que não para de crescer

Globalmente, o gap de talentos em cibersegurança atingiu 4,8 milhões de vagas abertas em 2024 — um crescimento de 19% em relação ao ano anterior, segundo o estudo anual da ISC². Só nos Estados Unidos, no terceiro trimestre de 2024, havia 1,58 milhão de posições demandadas contra 1,32 milhão de profissionais disponíveis. Ou seja: apenas 83% das vagas conseguem ser preenchidas, de acordo com o relatório trimestral do Lightcast para a Casa Branca.

No Brasil, o cenário não é muito diferente. A consultoria IDC estima que o país terá um déficit de 140 mil profissionais de cibersegurança até 2025. Segundo Rafael Cervone, presidente do Ciesp (Centro das Indústrias do Estado de São Paulo), o déficit total de TI no Brasil chega a 530 mil profissionais — e a fatia de segurança cibernética representa uma das maiores lacunas.

A Brasscom, associação que reúne grandes empresas de tecnologia no país, aponta que entre 2019 e 2024 o setor de TIC demandou 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil foram formados no mesmo período. O descasamento é de 30,2% — e a cibersegurança está entre as disciplinas com maior escassez.

A boa notícia para quem já está na área: essa escassez se traduz em poder de negociação. O mercado de trabalho para Analista de Segurança da Informação registrou crescimento de 24,12% no volume de contratações nos últimos 12 meses, segundo dados do Portal Salário com base no CAGED (período de maio/2025 a abril/2026).

Por que a demanda está explodindo agora

Não é apenas o volume de ataques que pressiona as empresas. É a combinação de três fatores que tornam a cibersegurança uma prioridade inegociável.

O custo de um incidente ficou alto demais para ignorar. Segundo o IBM Cost of Data Breach, o custo médio de uma violação de dados no Brasil em 2024 foi de US$ 1,36 milhão por empresa. Projetando esse número para o universo de médias e grandes empresas brasileiras que ainda não reforçaram sua segurança, o prejuízo estimado até 2028 pode ultrapassar US$ 394 bilhões, segundo análise publicada pelo Inforchannel.

A LGPD criou risco regulatório concreto. Desde que a Lei Geral de Proteção de Dados entrou em vigor, uma violação de dados deixou de ser apenas um problema técnico e passou a ser um problema jurídico. A ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) registrou 333 incidentes comunicados apenas em 2024. Empresas que não investem em segurança estão expostas a multas, ações judiciais e danos reputacionais duradouros.

A digitalização acelerou o perímetro de ataque. Mais sistemas na nuvem, mais dispositivos conectados, mais fornecedores com acesso a dados sensíveis — cada ponto de integração é uma janela potencial para invasores. Thiago Branquinho, CTO da TI Safe, resume bem: “É preciso entender e conhecer o que você está protegendo, incluindo a parte de infraestrutura.” Profissionais que conseguem fazer essa leitura ampla são raros.

Na América Latina, os ataques de ransomware cresceram 259% segundo o Relatório Anual de Ameaças Cibernéticas 2025 da SonicWall. O Brasil lidera o ranking regional de vítimas.

Os perfis mais procurados — e quanto pagam

O mercado de cibersegurança não é monolítico. Existem diferentes especializações, e a remuneração varia bastante conforme o nível de senioridade e o tipo de atuação.

Segundo dados do Guia Salarial de Tecnologia 2026 da Fox Human Capital, as faixas de remuneração no Brasil são:

Analista de Cybersecurity — CLT

  • PME: R$ 8.500 – R$ 11.000 – R$ 15.500
  • Grande empresa: R$ 11.500 – R$ 14.000 – R$ 17.500

Especialista de Cyber Security — CLT

  • PME: R$ 10.500 – R$ 14.000 – R$ 17.000
  • Grande empresa: R$ 13.500 – R$ 17.250 – R$ 21.000

Analista de Cybersecurity — PJ

  • PME: R$ 10.500 – R$ 14.250 – R$ 18.000
  • Grande empresa: R$ 13.500 – R$ 17.750 – R$ 22.000

Especialista de Cyber Security — PJ

  • PME: R$ 13.750 – R$ 17.500 – R$ 21.000
  • Grande empresa: R$ 17.000 – R$ 20.000 – R$ 25.000

Diretor de Segurança — CLT

  • PME: R$ 29.000 – R$ 35.750 – R$ 41.500
  • Grande empresa: R$ 34.500 – R$ 44.250 – R$ 54.000

Diretor de Segurança — PJ

  • PME: R$ 38.750 – R$ 46.250 – R$ 54.000
  • Grande empresa: R$ 44.750 – R$ 57.500 – R$ 70.250

Gerente / Head de Segurança/Cyber — CLT

  • PME: R$ 21.750 – R$ 27.000 – R$ 32.250
  • Grande empresa: R$ 27.500 – R$ 35.500 (na tabela aparece R$ 355.000 — provável erro de digitação) – R$ 43.750

Gerente / Head de Segurança/Cyber — PJ

  • PME: R$ 28.500 – R$ 35.000 – R$ 42.000
  • Grande empresa: R$ 35.750 – R$ 46.500 – R$ 57.000

Segundo cruzamento de dados do material da Fox, o Diretor de Segurança registrou crescimento de 15,02% entre 2025 e 2026 — segundo lugar no ranking geral, atrás apenas do Diretor Comercial (24,29%).

A perspectiva que fica

Cibersegurança virou uma das carreiras mais resilientes do mercado de Tech — e talvez a que menos sofreu com as ondas de layoffs que atingiram outras áreas de TI entre 2023 e 2025. Quando há um ataque real e dados de clientes comprometidos, a empresa não demite o time de segurança. Ela o expande.

O problema não é falta de interesse pela área. Pesquisas mostram que a procura por formações em cibersegurança aumentou significativamente nos últimos dois anos. O problema é o tempo de formação: uma carreira sólida nessa área exige anos de prática, certificações progressivas e exposição real a incidentes.

A lacuna vai persistir. E para as empresas que precisam contratar agora, a competição por esses profissionais vai exigir mais do que uma boa oferta salarial — vai exigir proposta de valor real: desenvolvimento de carreira, cultura técnica e trabalho com impacto.

Quem entender isso antes vai sair na frente.

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